Arábia Saudita: Polícia religiosa perde poderes de prisão

Carioca Travelando checking in…

Você que me acompanha há algum tempo por aqui, já ouviu falar que na Arábia Saudita e em muitos países do Oriente Médio existe a Polícia Religiosa. Para um “vale a pena ver de novo” acesse o artigo que escrevi contando mais detalhes sobre o assunto. No país entretanto, essa organização é bem mais conhecida, principalmente pelas mulheres, sejam elas Sauditas ou expatriadas que vivem por lá. Recentemente, o governo Saudita retirou da Polícia Religiosa (que vale lembrar faz parte da “Comissão para Promoção da Virtude e Prevenção dos Vícios”), todos os poderes de prisão. Esse ato é sem dúvidas um grande marco dentro da monarquia Saudita, principalmente para as mulheres.

Arabia Saudita

Na Arábia Saudita as mulheres precisam pedir permissão de um homem (seja ele marido, irmão, primo, sogro ou pai), para fazer tarefas consideradas cotidianas para muitas de nós, como por exemplo: viajar, trabalhar, cursar ensino médio ou faculdade, além de também precisar pedir permissão para se casar. Apesar desse cenário com muitas restrições, onde as mulheres tem raros direitos e praticamente nenhuma voz ativa ou decisiva, há poucos meses atrás, pela primeira vez na história do reino, as mulheres foram permitidas a votar, bem como a se candidatar a cargos públicos. Foi sem dúvidas um grande momento para a memória do país ver as Sauditas exercendo o direito do voto, e muitas inclusive sendo eleitas.

Arabia Saudita

Se voltarmos ao passado do reinado, veremos que a Arábia Saudita ainda é um país muito novo. Sua população atual tem a média dos 26 anos de idade, mas essa juventude ao longo desses últimos anos, vem trazendo uma expressiva evolução nos direitos das mulheres, principalmente se compararmos a trajetória do país e da região do golfo como um todo. Da mesma forma vale a pena relembrar que, além de todas essas conquistas mencionadas acima, a cada dia mais Sauditas estão fazendo parte da força de trabalho do reinado – algo impensável há poucas décadas atrás. Segundo números recentes divulgados pelo governo Saudita, mais de 400 mil mulheres estão ativas atualmente no mercado de trabalho desenvolvendo um serviço remunerado.

Apesar de todos esses feitos pelo direto das mulheres no país que é o berço do Islã, muitas delas ainda devem cobrir os cabelos com o véu, e dependendo da região, as expatriadas podem ser uma exceção a esse costume. Entretanto todas as mulheres (sejam elas, muçulmanas ou não), que estejam visitando ou residindo na Arábia Saudita, devem cobrir todo o corpo usando a famosa abaya – que vocês já conhecem e eu carinhosamente chamo de “pretinho básico”. A agência oficial de imprensa Saudita divulgou que, ao invés da polícia religiosa ter poderes de prisão, ela agora deve somente relatar “desvios de comportamento” de indivíduos à polícia tradicional. O decreto do governo ainda informa que, somente a polícia tem autoridade para seguir, perseguir, parar, questionar e verificar quaisquer pessoas suspeitas.

Desfilando o modelito abaya black total na capital Riade. Reparem que o lencinho curinga dá uma quebra no look monocromático #baixouablogueirademoda #sóquenão

Desfilando o modelito abaya black total na capital Riade. Reparem que o lencinho curinga dá uma quebra no look monocromático #baixouablogueirademoda #sóquenão

Para muitas mulheres, a perca dos poderes de prisão da polícia religiosa é um fato importante a ser comemorado. Seja por estarem passeando sem o seu guardião do sexo masculino a tira colo, ou seja por estarem vestindo com uma abaya um pouco mais moderninha, as mulheres eram, certamente, as mais abordadas por essa organização. Não é a toa que a polícia religiosa no país também é conhecida como a “polícia da moral”. Eu particularmente, nunca fui interpelada pelos localmente também conhecidos como Muttawas, entretanto conheço várias amigas próximas que já passaram por diversas situações constrangedoras ao serem abordadas pela polícia religiosa.

Um vídeo tornou-se viral na região, ao mostrar uma Saudita que filmou um bate boca com um muttawa em um grande shopping do país. No vídeo, o representante da polícia religiosa falava à essa moça em árabe, que ela não deveria usar esmaltes nas unhas e que por esse motivo, ela deveria se retirar do shopping. A moça filmou tudo, e aparece no vídeo (assista aqui), rebatendo todas as represálias feitas em público pelo muttawa.

Sem muttawa a vista, aproveitamos o  parquinho no shopping com as crianças

Aproveitando o parquinho no shopping com as crianças – sem muttawa por perto

No caso das brasileiras e expatriadas que eu conheço por exemplo, a polícia religiosa fazia a abordagem principalmente para que os cabelos fossem cobertos. A aproximação geralmente era feita muitas vezes de maneira nada discreta, (aos gritos e em árabe), no meio do shopping que frequentemente costuma a ficar lotado. Agora você conseguiria imaginar essa cena, que cá entre nós, é no mínimo bastante tensa e embaraçosa? A maioria das minhas amigas ficava muito nervosa e apressavam imediatamente o passo, colocando o lenço por cima dos cabelos, até finalmente não avistar mais os muttawas.

Apesar de muitos celebrarem essa perda de poderes da polícia religiosa, alguns acreditam que ainda é cedo para esperar por ações maiores que beneficiem as mulheres do país. Na Arábia Saudita, por exemplo, as mulheres são ainda as únicas no mundo que não podem dirigir.

E você, o que acha disso tudo? Já pensou se tivesse uma polícia religiosa bem aí aonde você mora? Eu adoraria ouvir o que você pensa sobre esse assunto. Compartilha aqui nos comentários com a gente! Enquanto isso, te vejo nas redes sociais através do Facebook, Instagram e Twitter.

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by Carla F.

Fotos by Carla & Vidal F.

Comments

  1. Bethyzabel says

    Olá, a abaya somente pode ser preta? Vi um lançamento de abayas lindas da Dolce & Gabana e pensei não ter que ser tão horroroso usar a vestimenta.

    • says

      Oi Bethzabel, a cor da abaya varia mesmo de acordo com cada costume local. Em Saudi as abayas tradicionalmente são em sua maioria pretas, mas eu já vi abayas de outras cores por lá na rua, como azul escuro, verde escuro… claro, nada muito chamativo. Entretanto é comum que as locais aqui dessa região usem abayas coloridas e até estampadas em encontros mais íntimos em casa com amigos e familiares por exemplo.

      • Bethyzabel says

        Obrigada Carla,
        Seus post estão sendo um alívio pra minha alma. Meu esposo provavelmente estará indo pra Riyadh em outubro e temos um menino de 4 anos. Estava muito preocupada com a questão dos costumes para mulheres, mas lendo suas matérias fiquei bem aliviada, agora estou no desespero por escola para meu menino. Tem alguma dica?
        Obrigada mais uma vez, só aceitei o desafio depois de achar seu site.

        • says

          Oi Bethzabel, você não faz idéia da felicidade que eu tenho ao ler comentários como o seu. Muito obrigada. É muito gratificante saber que os posts que eu escrevi aqui estão te ajudando. Eu escrevo o Carioca Travelando pra isso mesmo, pra compartilhar e ajudar. Em 2012 eu criei um grupo no Facebook chamado “Brasileiras em Saudi”. Nesse grupo que é secreto, as brasileiras que vivem na região compartilham as suas alegrias, dificuldades, dúvidas e trocam dicas. É um canal bacana, principalmente pra você que está chegando agora. Com relação a escola, minha sugestão é assim que o seu esposo chegar ir visitar as escolas e já colocar o nome nas listas de espera – geralmente costuma a ter lista. E também procurar um compound pra vocês viverem que vocês se sintam a vontade, e que tenha o maior conforto possível (como por exemplo, academia, escolhinha para o teu filhote, mercadinho e uma boa comunidade de expatriados), lá dentro do condomínio mesmo. Me avisa se você tiver Facebook, porque eu posso através desse seu email te adicionar lá. Um grande abraço, Carla

          • Bethyzabel says

            Oi Carla,
            Valeu mais uma vez pelas informações, tenho face sim e gostaria que me adicionasse ao grupo, pois já vou me inteirando dos costumes e dificuldades da região. Meu face é bethyzabel araújo
            Grata. Vou aqui continuando a ler seus posts de outros lugares também.
            Abraços, Bethyzabel.

  2. Rosi Feliciano says

    Eu assisti dias atrás um documentário sobre a tal “polícia religiosa” agindo indo em hotéis e vistoriando o que os hóspedes estavam fazendo, etc.. É impressionante como agem, embora já tivesse ouvido falar a respeito não imaginei que fosse algo como o que eu vi no programa

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